Voto de silêncio
Ficar sem voz me cansa. Suga as energias, acaba até com as reservas. Não consigo falar direito, e quem me conhece sabe que falar pouco, pra mim, é um desafio, uma luta, uma mini guerra.
E quando tento falar, as pessoas não entendem. “Ãhn????” “Quê??”
Deixa pra lá.
Rouquidão já é uma coisa comum na minha vida. Por isso ando munida de chicletes, balas, spray de própolis. Quando necessário, apelo para gargarejo com água e sal. Até chá de alho já tomei. Sim, medidas extremas, mas por uma boa causa.
Mas quando a coisa (e a voz) engrossa, o único jeito é ficar quieta. Fechar a boca, aprender a me comunicar com gestos e sinais. E só Deus sabe como é difícil ficar no meio de outras pessoas falando enquanto eu não posso sequer exprimir minha opinião ou soltar uma gargalhada quando ouvir algo engraçado.
Por essas e outras, quando isso acontece, acabo optando pela solidão. Sim, porque não tenho o hábito de andar por aí falando sozinha. Aproveito esses momentos reservados para ler, ver tv, ouvir música... ou, nessa situação específica, ficar deitada olhando pro teto relembrando os (ótimos) motivos que me deixaram nesse estado.
Ik spreek geen Nederlands?
Ordem do dia
Acabei de ouvir do meu chefe durante uma reunião tensa:
- mc, be free!!
Apesar de achar que ele queria dizer “be cool” – ou seja “fique calma”, “não esquente a cabeça”, “não se preocupe” – estou pensando seriamente em ouvir o que ele disse.
Afinal de contas, ordens são ordens. Não?
Cinderelo
Não se sabe bem quando ou como começou, mas desde pequena tenho um sério problema com pés. E todo mundo sabe disso.
Na infância, se alguma amiga deitasse do meu lado no sofá e pusesse os pés no meu colo, eu congelava. Ficava olhando, meio com nojo, mas sem conseguir ter alguma reação. Com o tempo, eu fui aprendendo que reagir era necessário. Passei do silêncio total para reações histéricas. Gritava com a menor ameaça de pés perto de mim.
Hoje estou mais controlada. Já consigo fazer brincar com isso, o que não significa que eu esteja gostando. Exceções exclusivas acontecem durante o inverno, quando o frio nos deixa mais moles e carentes. Enrosco os pés debaixo do cobertor sem problemas, até porque invariavelmente eu estou de meias (tenho uma coleção de pares de meia coloridas lindas).
Tratamentos de choque, brincadeirinhas de mau gosto e piadas em público já foram algumas tentativas para me fazer perder a aversão. Tentativas sem sucesso, diga-se de passagem.
Com o tempo, descobri que o grande problema são os dedos. É como se fossem mini polvos.
E o que mais me deixa louca são aqueles momentos em que a pessoa chega em casa, tira os sapatos, coloca os dois pés em cima do sofá e começa a movimentar os tentáculos, digo, os dedos, esfregando-os uns nos outros, fazendo aquele barulhinho..... ecaaaa!!!
Mas o mais incrível é que, apesar do nojo, quando vejo pés descalços não consigo não olhar. Fico encarando, analisando o comprimento, formato, tamanho, condições das unhas, quantidade de pêlos, curvatura do colo do pé, maciez dos calcanhares...
Já desisti de tentar descobrir a origem do problema, me conformei que isso é um fato e ponto final. Mas não consigo não pensar que rumo minha neurose vai tomar daqui pra frente. Se está evoluindo, aumentando, e eu só vou poder suportar ir à praia com pessoas de meias. Ou se vou superar o trauma e nunca mais pensar nisso, a não ser como uma memória de um tempo distante. Se vou me apaixonar por um gringo que use papetes com meias ou se um dia vou encontrar um homem com um pé perfeito, que eu admire e queira viver fazendo massagens – um Cinderelo dos trópicos, que use Havaianas ao invés de sapato de cristal.
De qualquer maneira, sugestão para os que me conhecem: não custa dar uma passadinha na pedicure (podólogo, para os homens) antes de aparecer sem sapato na minha frente. Depois não digam que eu não avisei...
Turismo mortal
Acabei de ler uma notícia falando que uma clínica de Zurique ajuda pessoas deprimidas a se suicidar.
É claro que já ouvi falar de eutanásia - mas do tipo passivo, em que os aparelhos que mantêm uma pessoa viva são desligados. Não tinha conhecimento da versão ativa, em que o paciente planeja e contrata um profissional para auxiliá-la. E muito menos dessa outra vertente que é o suicídio assitido.
Na Suíça existe uma lei que permite o suicídio assitido para pacientes com doenças terminais. Os "clientes" administram um coquetel de drogas letal em si mesmos, e botam um fim no sofrimento.
O escândalo é que agora uma dessas clínicas estaria agindo sem rigor para determinar se os pacientes se enquadram nos casos previstos pela lei, e está atraindo estrangeiros de todas as partes do mundo, que não necessariamente possuem alguma doença incurável. Pessoas estão falsificando diagnósticos médicos para conseguir auxílio da clínica para se suicidar. Isso está sendo chamado de turismo mortal.
Por essa
Thomas Cook não esperava.