Barbacoa
Dando continuidade ao último post, hoje logo que cheguei ao trabalho encontrei um diretor que participou “da” reunião. Antes de reproduzir o diálogo, é importante falar que ele é gringo e serei fiel à suas palavras:
- Bom dia – disse eu
- Bom dia – ele respondeu
- Bela barbacoa na sexta, hein? – continuou, fazendo um gesto de estranho com a mão.
- Nem me fale – respondi, sem entender direito.
- Mas acho que você se saiu bem. Muito bem.
Desci as escadas com um sorriso de orgulhar qualquer dentista, exibindo minha arcada dentária completa. Não é todo dia que você recebe um elogio desses, ainda mais quando você desconfia que sua reunião foi um fiasco.
Chego na minha mesa, ligo o computador e me deparo com o seguinte e-mail SPAM de uma loja:

Uma imagem vale mais do que mil palavras.
The meeting
Exame invasivo a caminho. Nervos à flor da pele.
Era pra ter sido hoje. Mas hoje tinha uma reunião importante com diretoria/ presidência, e sabia que meu chefe ia precisar de mim. Então até fiquei aliviada quando meu pai decidiu sugeriu que eu fizesse só na semana que vem. Pra quê a pressa se não é urgente?
Então eu resolvi chegar mais cedo no trabalho, dar mais uma olhada na apresentação antes do chefe chegar. Eis que, no meio do caminho, ele liga. Formal, como sempre, avisa que não vai poder trabalhar por motivo de saúde. Tensa, você espera o que está por vir. E veio:
- Já liguei para o presidente e avisei que você fará a apresentação sozinha.
Glupt.
Ok, o chefe falou, ta falado. Agora tem que encarar.
Vou ser bem sincera, até 15 minutos antes da reunião, eu não estava muito nervosa. Me preparei, conhecia o assunto e essa não era minha primeira reunião com esse grupo. Ok, era minha primeira vez sozinha com eles, e eu tinha um tema meio delicado pra abordar, mas ‘vambora. Controlar minha ansiedade é motivo de orgulho, pra mim e pra quem me conhece.
E eu controlei. Segurei geral. Arrumei a sala, liguei o projetor, a apresentação, montei os materiais que queria mostrar e pronto. Na maior calma.
Fui cumprimentando os executivos, um a um. Todos sentados, alguns ausentes (com a graça de Deus, o pior faltou). Vamos começar.
Começar a falar e a transpirar. Tinha um roteirinho pra me ajudar a manter o foco. Tudo corria bem, até a primeira pergunta.
Primeira pergunta e gota de suor. De repente a sala foi ficando quente, e eu comecei a transpirar. Cada vez mais, e mais, e mais. Damn it, camisa verde escura, escolhi a roupa errada. Melhor não fazer movimentos bruscos pra roupa não grudar no corpo, denunciando meu nervosismo.
O tema era budget. Eu estava ali para prestar contas do que foi gasto, e pedir uma graninha extra pra cobrir novas atividades. Em inglês.
Respondia todas as questões que me faziam, apesar da minha vontade de sair correndo dali. Correndo pra longe daqueles engravatados ansiando por explicações.
Mas não fugi. Fiquei até o final. Até tive o prazer de dizer para o presidente “Don’t shoot the messenger”. Posso garantir que ele riu, e que o riso foi sincero.
Uma hora e meia depois a reunião acabou. E eu vivi para contar essa história.
Pois é… como diria o outro, “There’s always time for lubricant”.
Vida doméstica - II
Minha faxineira trabalha em casa há uns 5 anos, mais ou menos. Ela é muito boa, de confiança, pontual, não quebra coisas e não tem mania de decoração. Mesmo com tantas qualidades, ela não é perfeita. Guarda as roupas nos armários errados, não lava todas as roupas que podia lavar no dia que as colocamos pra lavar e deve tirar um cochilo enquanto passa as roupas, porque vira em mexe elas aparecem com um brilho que não tinham quando eu comprei.
Mas o pior de tudo é seu vício. Sim, ela tem um vício, por sinal muito sério, que até já chegou a afetar os moradores da casa mais de uma vez.
Ela é viciada em cândida. Não sabe limpar um banheiro sem a poderosa. Me explicaram que é porque o negócio é tão forte que ela quase não precisa fazer força para deixar os azulejos branquinhos.
Mais de uma vez fui surpreendida por roupas manchadas pela cândida. Gotinhas brancas permanentes nas minhas peças preferidas. Claro, essas coisas não acontecem com as roupas mulambentas, de ficar em casa.
Da
minha irmã, ela manchou um tapete do banheiro. Na verdade, dois. E nós duas, como patroas conscientes, resolvemos suspender a compra da mardita.
Há quatro meses a Selma está limpa. Sem cândida. A casa não está mais suja por causa disso, e os braços dela estão até mais fortes.
Como quase não encontro com ela, não participei da crise de abstinência. Mas imagino que deva ter acontecido, porque ninguém abandona um vício sofrer pelo menos um pouco.
Hoje, saí de casa com a lista de compras na mão. Desci o elevador com lágrimas nos olhos de tanto rir. Reproduzo aqui:
Sabão em pó
Amaciante
Detergente de côco
Lustra móvel
Ola
Sabão para roupas pretas
Vanish
BomBril
Pinho Sol
Esponja
E lá embaixo, no rodapé da página: “por favor 1 cândida”
Causa e conseqüência
Desde criança escuto da minha mãe “causa e conseqüência – toda ação gera uma reação”. E teoricamente desde então sei que essa é uma das maiores verdades do mundo.
Ninguém agüenta viver muito tempo levando aquele estilo de vida. Então um dia comecei a me sentir mal. Estava na rua, resolvi ir rapidinho pra casa, deitar no sofá e por os pés pra cima, esperando aquilo passar.
Mas, como três dias depois ainda não tinha passado, resolvi procurar a enfermaria do trabalho, achando que talvez fosse só pressão baixa. Me sentia mal, ficava nervosa por estar me sentindo mal, e conseqüentemente eu piorava.
Piorei tanto que me botaram numa ambulância e me levaram pro hospital. Fui lá, deitadinha no chiqueirinho, sem poder olhar pela janela pra onde diabos estavam me levando. Sinal nº1 de que eu não estava no controle.
Entrei no hospital andando, para desespero das enfermeiras. Mas eu estava bem o suficiente para isso.
Me botaram numa maca no Pronto Socorro e ali me deixaram. Fiquei meio esquecida por algumas horas, encarando o ponteiro vermelho do relógio na parede à minha frente. Ligada à fios, sozinha, sem saber direito onde estava ou o que estava acontecendo, proibida de usar o celular, eu esperava as horas passarem e as coisas se resolvessem.
Se resolveram sim, mas não do meu jeito. Vencida pelo cansaço, fui internada. Na UTI.
Eu sempre imaginei que UTI era um lugar para pessoas à beira da morte. Mas descobri que na verdade os pacientes ficam separados de acordo com a gravidade do problema. No meu caso, eu estava na ala dos pacientes com melhor estado, o que é menos assustador.
Mas o fato é que, na UTI, você não tem sossego. Se você está lá, é porque precisa ser monitorado constantemente. Então, as enfermeiras vêm até sua cama o tempo inteiro. Elas te espetam agulhas, tiram sua temperatura, medem sua pressão, anotam coisas em suas pranchetas.
Continuei ligada a fios por 24 longas horas. Levei algumas injeções e tiraram meu sangue algumas vezes. Mudei de posição na cama (pequena demais para 1,20m de pernas) diversas vezes, suspirei infinitas vezes. Troquei idéia com meus vizinhos de cama, uma mulher de 55 anos que foi dirigindo enfartada para o hospital, e um homem de 36 anos que teve um enfarte no dia do seu aniversário. O melhor de tudo é que ninguém ficava se lamentando, reclamando, choramingando. Felizes de estar ali, é claro que não estávamos, mas acho que o susto fez todo mundo pensar.
Posso falar por mim. O susto me fez pensar, e muito. Até porque, tive que ficar em repouso em casa mais alguns dias antes de voltar ao trabalho, e nada de muito interessante aconteceu para mudar o foco.
Ainda estou tentando descobrir o que desencadeou o piripaque, mas enquanto os médicos estudam, eu já tenho minhas suspeitas. Causa e conseqüência.
E por isso, fui obrigada a pôr o pé no freio. Na vida social, nas saídas, em tudo. Menos baladas, menos caipirinhas, menos programas, menos ligações, menos emoções, menos prospects, menos intensidade.
Menos, por que dessa vez não foi nada sério. E foram só 24 horas. Mas eu não quero voltar para um hospital tão cedo, a não ser que seja para visitar algum bebê na maternidade.
Então, por enquanto, vai ter que ser simplesmente MENOS.
220 Volts
Vinha levando uma vida ansiosa e agitada há algum tempo. Desde que saiu da toca, lá por meados de janeiro, respeitando os momentos em que deveria mais é se proteger das crueldades do mundo do que expor seu pobre coração a mais uma bordoada, vive nesse ritmo frenético de happy hours, baladas, jantares, viagens....
A ansiedade tem um motivo claro. Vontade de fazer coisas legais, viver experiências interessantes, se divertir. Curtir a vida mesmo. E vai levando a vida num ritmo bola de neve – uma balada leva à outra, que leva à outra, que leva à outra – e enquanto o telefone não pára de tocar você continua aceitando todos os convites, nem que seja só pra tomar um vinho na casa de um amigo ou um café no Santo Grão. Você vai com úlcera no olho, com infecção na garganta, antibiótico na veia. Mas vai.
Você tem mais ou menos 415 prospects, mas na verdade não está com vontade de sair com nenhum daqueles que estão te ligando. Você quer sair com aquele, justo aquele que você nunca encontra. E você continua tentando!
Mais uma sexta-feira, programa armado, você resolve aceitar o convite. Antes de sair, você passa na casa de uma amiga para dar uma mudada no seu guarda-roupa cansado. Poderosa, saudável e com o diabo no quadril, lá vai você.
Quem mais vai? Quem vai tocar? Você falou com ele? Tá com meu convite? Vamos ganhar pulserinha? Me traz um copo com gelo? Tem Red Bull light? Deixa eu levantar que to nervosa? Pega meu celular? Me passa o baldinho de gelo? Ainda tem vodka aí? Passa o isqueiro? Eles vão pra lá depois? Divide um Red Bull comigo? O que ela queria? Deixa eu sentar? Que horas a gente vai? Você tem rímel aí? Minha roupa ta boa? Quem vai no meu carro?
Pronto. Isso foi só o esquenta. Ligada no 220, você segue dançando, rindo, saindo, vivendo. Intensamente.
O último respiro
Já faz mais de um mês que o vidro do meu carro emperrou. Obviamente que não poderia ser qualquer um dos três vidros que eu nunca uso. Não, tinha que ser logo o do motorista. Murphy explica.
Enfim, no começo, ele só dava umas emperradas. Mas, com um pouco de pensamento positivo, ele voltava a funcionar.
Há duas semanas, ele deu pra não abrir. Ok, meu lado Polyanna me incentiva a pensar que “pelo menos ele emperrou fechado, e não aberto – diminuindo as chances de eu ser assaltada, molhada pela chuva ou de ficar surda com o barulho dos caminhões que eu enfrento diariamente na via Anchieta”. Mas meu lado prático foi mais forte, e eu fui dominada pela raiva. Raiva de ter que lidar com o que eu chamo de “blindagem de pobre”, que significa que eu não tenho a segurança da blindagem mas mesmo assim tenho que abrir a porta para apertar o botão da garagem, pra passar num drive-thru (coisa que não faço há anos, mas vai saber quando vou precisar?) ou para dar esmolas na rua.
Tudo ia bem, afinal de contas eu tenho ar condicionado no carro. Mas aí eu resolvi pegar uma gripe daquelas, de levar a gente pro hospital. “Ar condicionado nem pensar”, disse o médico.
A solução foi abrir o vidro do passageiro e o do banco de trás atrás do motorista, pra fazer uma corrente de ar básica. Até que funciona, mas não deixa de irritar.
O auge do stress foi semana passada, que tive o prazer de receber meu carro das mãos de um manobrista bêbado. Era tarde da noite, e eu resolvi não brigar.
Entrei no carro, apaguei as luzes internas (que só Deus sabe porquê ele acendeu) e fechei a porta. O cheiro que impregnava meu automóvel (que normalmente cheira a Trident azul) era tão forte, que eu fiquei desesperada. Tentei abrir o vidro, e lembrei que estava quebrado. Depois tentei usar a estratégia vidro do passageiro com vidro do banco de trás pra fazer corrente, mas eles também não funcionaram!!! TODOS OS VIDROS ESTAVAM QUEBRADOS E EU ALI PRESA COM AQUELE CHEIRO!
Não tive dúvida, no primeiro farol vermelho, abri a porta e respirei o ar puro de São Paulo. Detalhe: em plena esquina da Faria Lima. O sinal ficou verde, fui obrigada a fechar a porta e andar. Continua histericamente tentando abrir os vidros, sem sucesso.
Próximo farol vermelho, lá fui eu abrindo a porta de novo. O sinal ficou verde rapidinho (MURPHY!) e eu resolvi ignorar a necessidade de andar com a porta fechada, e fui bem devagarzinho pra tentar manter uma frestinha aberta.
Não pensava em assalto, nem multa, nem no que os outros iam pensar. Só pensava em respirar.
Cheguei num cruzamento perigoso, e achei melhor fechar a porta. Foi quando, de repente, ao tentar acertar o botão da trava das portas, minha mão escorregou e....
... consegui desativar a trava de segurança de todos os vidros.
Todos menos o do motorista, é claro. Esse é caso pra oficina mesmo.
Entre línguas e dentes
Tudo começou há uns 4 meses, quando minha irmã começou a me assediar. Trazia o tema “cachorro” nas conversas o tempo inteiro, e eu passei um bom tempo ignorando-a.
Algumas vezes, cheguei a tapar os ouvidos e cantar “lalalalalala” bem alto pra não ouvir o que ela falava.
Mas um dia ela acordou decidida a me fazer ouvir. Dessa vez, resolveu que só falar não bastava, que ela precisava de uma abordagem mais radical.
E ela veio com fotos. Fotos de filhotes. E depois de uma filhotinha em especial, que a essa altura já tinha até nome.
Tentei ignorar por um tempo, mas que atire a primeira pedra quem nunca derreteu ao ver um filhote!!
“Golpe baixo”, pensei. Ela parecia mesmo determinada. Mas eu não estava disposta a ceder naquele momento. Disse que ia pensar e saí.
Pensei, pensei, pensei, pensei e pensei. Fui num pet shop, comprei um brinquedinho pra cachorro, mandei embrulhar e dei de aniversário pra ela, além do DIREITO de ter um cachorro!! Olha que irmã mais legal... (esse direito me isenta de qualquer obrigação como limpar excrementos, dividir despesas, dar banho, levar passear e qualquer outra coisa que eu não queira fazer de livre e espontânea vontade).
Tínhamos que esperar dois meses até a Flor poder vir pra casa. O tempo se arrastava e eu já estava mais ansiosa que a própria dona. Chegou o dia, lá fomos nós para o canil buscar a nova moradora da casa (com direito a vômito no carro e tudo).
Bom, já se passou um mês desde que a Flor chegou, mas parece muito mais tempo. A minha vida mudou bastante desde então. Porquê?
1) por que todo dia que eu chego em casa tem alguém muito feliz em me ver
2) por que tenho que deixar as portas do meu quarto e banheiro fechadas para não ter nenhuma surpresa desagradável quando chegar em casa
3) por que a sala não tem mais tapete
4) por que eu não ando mais descalça (bebês fazem xixi fora do lugar às vezes...)
5) por que se eu andar em casa no escuro corro o sério risco de pisar num brinquedinho
6) por que eu fico com saudades quando estou longe
7) por que ela me faz rir com seu jeito desengonçado
8) por que nunca mais eu consegui dormir no sofá
9) por que eu levo arranhões, mordidas e várias lambidas
10) por que eu tenho platéia quando começo a pular com as músicas de Salvador
11) por que eu me preocupo quando ela fica tempo demais sozinha
12) por que eu já voltei da balada às 3h da manhã e dormi no chão da sala com ela no colo só pra ela não ter que ficar mais tempo sozinha
13) por que minha irmã viajou e eu tenho que alimentar, limpar o jornal, brincar, escovar...
Nem eu sei porque demorei tanto pra escrever sobre ela... mas sei porque estou escrevendo agora.
Hoje é a primeira vez em um mês que eu vou voltar pra casa e não vai ter Flor pra me agradar, me irritar, me lamber, me derreter...
Vê se aproveita essas suas férias e volta logo pra sua tia não ficar muito carente!!!!